
Por que a Nike parece “já estar ganhando 2026” e o que isso ensina sobre produto, narrativa e execução
Existe um tipo de vantagem competitiva que não aparece em uma campanha, nem em um “manifesto de marca”. Ela aparece no produto e, principalmente, na capacidade de transformar inovação em plataforma, não em evento isolado.
É isso que a Nike vem sinalizando na virada para 2026: um movimento de organização interna + tecnologia aplicada + storytelling conectado a grandes momentos do esporte. Não é “um tênis novo”. É uma máquina de criação que acelera ciclos, reduz fricção entre times e aumenta a chance de acertar o que o consumidor vai desejar (e pagar) antes de virar consenso.
1) A mudança mais importante não é o produto. É o motor de criação.
Em outubro de 2025, a Nike anunciou que unificou times de Inovação, Design e Produto de Nike, Jordan e Converse em um único “engine” focado no atleta, justamente para acelerar inovação e crescimento. Isso é forte por um motivo simples: a maioria das empresas tenta “ganhar velocidade” adicionando ferramentas por cima do legado. A Nike está dizendo o oposto: mexe na estrutura para a inovação virar rotina.
Para moda (inclusive fora do sportswear), essa é a principal provocação: não dá para escalar inovação com times fragmentados e decisões que dependem de alinhamento manual. Quando cada área tem sua própria verdade e o “cadastro de produto” vira um campo de disputa, a inovação vira custo.
2) Inovação em 2026 será plataforma: clima, corpo e performance viram roadmap.
No mesmo anúncio, a Nike apresentou quatro plataformas que parecem desenhadas para “viverem” por temporadas e não morrerem em uma cápsula:
Aero-FIT (cooling para um mundo mais quente): tecnologia de resfriamento com mais que o dobro de airflow vs. materiais anteriores, pensada para performance em condições extremas e com um componente de escala: é descrita como a primeira apparel elite feita com 100% de resíduo têxtil. E vai estrear em 2026 nos kits de futebol das seleções patrocinadas pela Nike, no “maior momento esportivo de 2026”.
Nike Mind (mind science / foco e presença): calçado “neurociência-baseado”, com 22 nodes por pé para estímulo sensorial; a própria Nike posiciona isso como uma nova fronteira do laboratório esportivo. Lançamento previsto para janeiro de 2026.
Project Amplify (powered footwear): um sistema de “calçado motorizado” com parceria de robótica, combinando motor, drive belt e bateria (em formato tipo tornozeleira), ainda em testes e mirando lançamento amplo “nos próximos anos”. A proposta é clara: dar ao usuário uma espécie de “segunda panturrilha” para ir mais longe com menos esforço.
Therma-FIT Air Milano (outerwear adaptativa): jaqueta com tecnologia A.I.R. (Adapt. Inflate. Regulate.) para inflar/desinflar e regular temperatura sem trocar camadas; a Nike diz que atletas do Team USA vão estrear a peça “neste inverno em Milão” (contexto 2026).
Quando você olha esse conjunto, a leitura é: o produto vira resposta para macroforças reais (clima, comportamento, bem-estar, tecnologia vestível) e isso cria diferencial que não depende de desconto.
3) “Vencer 2026” é ganhar a guerra de execução: do piloto ao rollout.
Um ponto que aparece com frequência na conversa de IA e inovação (e que vale para produto também) é a armadilha do “piloto eterno”. Aqui, o interessante é que a Nike amarra as inovações a momentos globais (kits em 2026, estreia em Milão, launch em janeiro, etc.). Isso força governança: prazo real, vitrine real, pressão real. Em moda, muita “inovação” morre porque não tem dono, não tem cadência, não tem integração com o calendário de coleção.
4) O aprendizado para moda (mesmo fora do sportswear): a vantagem está no “entre as áreas”.
A Nike está tratando inovação como cadeia: laboratório → design → produto → narrativa → escala. E isso conecta diretamente com a dor mais comum em empresas de moda: o buraco entre criação, desenvolvimento e a verdade do produto. Se o dado de produto não é confiável, não existe “plataforma” que se sustente. Você até lança, mas não escala.
Em outras palavras: por trás do “produto do futuro”, existe sempre uma disciplina do presente: processo, dados, integração e ritmo de decisão.
5) Checklist prático: como saber se sua empresa consegue repetir esse tipo de playbook
Se você quiser usar a Nike como espelho (não como cópia), as perguntas que importam são:
Existe um “engine” de criação (mesmo que pequeno) onde Produto, Estilo, Planejamento, Sourcing e Tech trabalham na mesma cadência?
O que você lança hoje vira plataforma (aprendizado + evolução por temporadas) ou vira “coleção que morre”?
Seu calendário tem momentos-âncora (lançamentos, viradas, eventos, cápsulas) que forçam rollout, não piloto?
Você tem dado confiável de produto para sustentar escala (cadastro, materiais, custos, aprovações, lead time, histórico)?
A narrativa vem depois do produto — ou o produto já nasce com uma história que o mercado entende?